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Jardin Secret

Posted in Divagando on agosto 30, 2010 by sinistrum

Solidão é um estado interno no qual a pessoa sente um vazio e um isolamento, a princípio é um sentimento de que algo ou alguém está faltando.

Hoje em dia, em muitas cidades, devido a uma vida corrida e agitada, muitas pessoas são independentes e moram sozinhas, porém não se sentem solitárias ou não veem a solidão como um fardo, isto porque elas se sentem em paz nessa situação. Em contrapartida, presenciamos pessoas rodeadas de gente na escola, universidade, na balada, porém sentem-se extremamente solitárias, evidenciando que o sentimento de solidão pode estar presente em qualquer lugar e situação.

Mas o estar acompanhado nada mais é que a ilusão de que transpomos nossa própria solidão.

A pior mentira é a que contamos para nós mesmos. Vivemos em um universo cujos alicerces são mitos, mentiras inconscientes que contamos para nós mesmos, vivemos num mundo de máscaras, máscaras que não tiramos nem diante do espelho.

E nesse mundo narcisista, quando vemos de relance nossa verdadeira face, não a suportamos, não a reconhecemos, então fugimos tentando abraçar a imagem que os outros têm de nós. Buscamos nos outros o que nós não somos.

O que quero dizer com isso?

Muitas pessoas não suportam a solidão porque não suportam sua própria companhia, pra ser mais claro, não suportam a si mesmas.

Por isso, buscar o outro é uma ilusão e uma fuga.

Não quero dizer que é difícil fugir da solidão, quero dizer que é impossível.

Entenda, o que as pessoas conhecem a nosso respeito é somente o que elas ouvem de nossas bocas, ou o que testemunham de nós, e daí constroem ideias(imagens) de nós tão deturpadas quanto as ideias que temos delas.

Existimos, de fato, primariamente num nível privado que é inacessível; portanto todo e qualquer contato acontecerá sempre de forma indireta. O que contradisser isso, é poesia, ou mentira deslavada. Somos todos estrangeiros vivendo cada qual seu exílio pessoal, cada qual está trancado em si próprio, e só conhecemos os que os demais dizem de si, nunca eles próprios.

Para fugir de nossa própria natureza buscamos o bajulamento, a afirmação de nós mesmos na boca dos amigos; e odiamos quando alguém é desumanamente sincero conosco ou, pelo menos, a imagem que esse alguém tem de nós não corresponde à nossa auto ilusão.

É verdade o que dizia Caetano Veloso:

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho”

O “estar juntos”, frequentemente, é uma forma de sofrimento, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. “O inferno é o outro”, como dizia Sartre.

É digno de pena quem não consegue caminhar sozinho e sempre depende da aprovação dos outros, sempre se exibindo, sempre mostrando sua máscara, ouvindo a mentira(ilusão) dos outros a afirmar sua própria auto ilusão. Afirmo o que dizia Bachelar:

parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis”.

Ficar sozinho, ler, ouvir música… Ao meu redor as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade de minha mente. Como uma vela solitária que ao seu redor cria um círculo de claridade mansa que se perde na sombras. Estar melancolicamente feliz.

“Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o ESCURO DA NOITE.” (Clarice Lispector)

Texto de Théo Mochteros

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