Arquivo para outubro, 2010

Cultura e Subcultura

Posted in Cultura on outubro 18, 2010 by sinistrum

“As subculturas são culturas de grupos no interior de uma sociedade maior”
Sheth, Mittal & Newman

É bem provável que os argumentos deste texto, em parte ou no seu todo, você já tenha lido em algum outro blog ou site dentro da grande rede, mas, como afirma a neuro-linguística: “é pela repetição que se aprende”. Por isso, é sempre bom (re)ler um pouco mais sobre os temas que nos são afins. Além disso, um conteúdo, por mais abordagens que tenha ganho, em maior ou menor escala, dificilmente chega ao esgotamento total de sua análise e quando falamos de subcultura gótica nenhuma exceção é feita, pois a mesma, intrincada em denso e complexo contexto histórico possui extensa possibilidade de análise. Como se diz no popular: “há muito pano pra manga dentro dessa temática”. Por isso, repetiremos o que for preciso repetir e, dentro do possível, acrescentaremos o que pode ser acrescentado.
Iniciaremos nossa peregrinação pelo abrangente universo do gótico fazendo uma breve abordagem sobre o que é subcultura, pois entendemos que todo tema cujas raízes estão fincadas na história social de um grupo, só pode ser compreendido em sua própria base histórica. Passaremos pelo punk, flertando com algumas características históricas dessa subcultura, para daí, entrarmos na subcultura gótica e entender o que se convencionou a charmar “gótico”. No entanto, antes de definir subcultura, é necessário primeiro entender o que é cultura.
Entende-se por cultura toda e qualquer produção humana que cria vínculos entre a pessoa e o meio que a cerca, bem como as demais pessoas. O homem é o único ser capaz de pensar, organizar suas ideias, expressá-las e projetá-las para as gerações futuras.

A cultura teve origem na necessidade de sobrevivência do ser humano que o impeliu a transformar o próprio meio que o rodeia.

Ela é, portanto, produto do trabalho do ser humano e este, por sua vez, torna-se produto de sua própria cultura. Disso podemos afirmar que o homem é produto e produtor de cultura e que não há pessoa que não tenha uma cultura. A cultura pode ser material quando expressada em objetos, utensílios, obras de arte, a forma como as casas ou prédios são construídos em determinada sociedade, meios de transporte, e assim por diante; ou pode ser imaterial quando expressa conhecimentos, sistema de valores, crenças, gestos, símbolos etc. Além  disso, devido a diversidade de elementos que constituem uma cultura em um espaço organizacional, movida pelos diferentes tipos sociais, não há uma só pessoa que possa ter acesso a todas as manifestações culturais desse espaço. Isso levou alguns sociólogos a questionar o absurdo de se acreditar que um espaço social é composto por uma cultura homogênea que o unificaria, mas, pelo contrário, seria ele composto por uma diversidade de subculturas próprias que marcaria esse meio social como um espaço pluricultural. Só para citar alguns: Carroll & Harrison e Hofstede trilharam esse caminho quando afirmaram que uma organização pode até possuir uma cultura que a distingue de outras, mas disso não se poderia pressupor uma homogeneização cultural absoluta. Hawkins e Denison afirmaram que considerar a cultura de uma organização uma identidade única e unitária, constitui um mito. Como exemplo do que foi afirmado acima, podemos citar, entre outros, a grande São Paulo, uma megalópode que hoje possui uma plêiade cultural tão sincrética, composta por gringos, descendentes italianos, japoneses, que torna-se difícil estabelecer um padrão cultural homogênico. E todos esses segmentos étnicos, também constituem uma subculturalidade.

Agora, o que é uma subcultura?

Pode-se definir subcultura como um sistema de elementos culturais específicos voltados para determinado grupo particular dentro de uma sociedade.

É um segmento da sociedade que se difere do padrão social maior e, mesmo assim, participam da cultura dominante embora mantendo distinções próprias.

Os segmentos étnicos citados acima servem como exemplo de subcultura por constituírem uma herança étnica; assim como a cultura nordestina, que por ser profundamente marcada por traços de religiosidade, possui uma visão de mundo guiada por esses traços culturais-religiosos, ou os peões boiadeiros nos pampas gaúchos; em fim, todas essas manifestações culturais com suas particularidades muito próprias e mesmo assim inseridas no contexto global da sociedade, constituem, numa abordagem mais geral, subculturas. A subcultura urbana é um outro fenômeno a ser ressaltado. Seguindo o mesmo princípio do conceito anterior, esse tipo de subcultura é marcado pelos espaços delimitados dentro de uma zona urbana. Cada grupo possui características e rituais específicos que os diferenciam uns dos outros dentro do mesmo espaço social. Esses micro-grupos colhem na cultura padrão e global da sociedade fragmentos elementares que são mais adequados à sua cosmovisão e a partir daí criam todo um critério de valores, comportamentos, práticas e sistema de símbolos que se condensam numa “identidade”. É o que Levi Strauss em sua doutrina social define como Bricolagem: uma reorganização das peças do jogo utilizando-se de peças pré-existentes no meio social. Por exemplo, diante da situação deplorável que as pessoas atravessam nos subúrbios das grandes cidades contando apenas com um auxílio deficiente por parte das autoridades competentes, a subcultura punk colhe nessa situação elementos para compôr suas letras de protesto e propagar seus ideias de uma sociedade livre do poder governamental: a anarquia.O conceito de subcultura (urbana) surgiu em fins de Segunda Guerra Mundial quando a Europa assistia a uma crescente onda de manisfestações culturais voltadas para uma nova condição que a juventude atravessava e se consolidou com Dick Hebdige e a publicação de sua obra Subculture, the meaning of style de 1979. Geralmente marcada pela insatisfação voltada para uma sociedade ufanista com seus conceitos massivos de consumo, essa juventude buscou catalisar seus desejos através de um estilo de vida alternativo criando trejeitos peculiares de comportamento e atitude. Foi nessa época que surgiram algumas subculturas como Punks, Mods, Beats, Hippies, Rockers, Góticos, entre outras.

Insatisfação e irreverência da juventude proletária: as bases do punk.

Insatisfação e irreverência: as bases do punk

Insatisfação e irreverência: as bases do punk

Não há hoje como não reconhecer que o punk, ao menos em termos musicais e estéticos , foi responsável pelo surgimento da subcultura gótica, sendo esta uma derivação daquele, mas com algumas redefinições de valores. Vamos agora conhecer um pouco da origem de tudo isso. Na década de 70, três músicos completamente insatisfeitos com o direcionameto que a cultura pop estava tomando, cada vez mais superficializada pela sofisticação da tecnologia emergente, resolveram seguir na contra-mão. Patti Smith e Tom Verlaine do Television e Richard Hell, do Voidoisds, criadores da blank generation (geração oca) em Nova Iorque, fundaram o movimento minimal, uma vertente cultural que exigia o mínimo possível do artista e resgatava letras de cunho existenciais que perpassavam uma sociedade que vivia as tensões do pós-guerra; tudo isso ritmado por um rock básico e sem frescuras tecnológicas. Estava lançado o alicerce para o que viria a ser conhecido posteriormente como movimento punk, idealizado por Malcolm McLaren e prenunciado ainda em 1972 pelo filme Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, que mostra um mundo futurista extremamente violento onde gangues, usando um visual desarticulado e ouvindo um som incoerente (música erudita com sintetizadores), dominam as ruas. Estando desanimado com o fracasso de seu grupo proto-punk New York Dolls, Malcolm MacLaren retorna para Londres acreditando ser possível a criação de um movimento contra-cultural. Lá, ele monta uma grife e resolve criar um grupo musical que serviria de base para a divulgação de seu negócio. O nome do grupo? Sex Pistols. Quatro jovens que não entendiam absolutamente nada de instrumentos musicais e muito menos de música (para se ter uma ideia, Sid Vicius nem mesmo sabia como pegar no baixo). Mas nada que o movimento minimal não desse um jeitinho e em pouco tempo o grupo montou uma música composta basicamente por três ou quatro acordes no máximo que dava sonoridade a um ritmo novo que se tornou a panacéia entre a juventude proletária da Inglaterra. E o punk-rock ganhou as ruas de Londres.
Não é minha intenção aqui estender-me em detalhes quanto ao movimento punk, uma vez que o tomo apenas como fulcro para chegar ao filho obscuro que ele viria a gerar, mas sinto-me tentado a fazer alguns esclarecimentos. O leitor pode acreditar que os Sex Pistols foram os responsáveis por toda a revolução musical ocorrida na Inglaterra nesse período da história da música, mas a verdade é que Malcolm Maclaren, enquanto empresário, aproveitou a conjuntura vigente proporcionada pelo minimal e produziu todo um marketing em torno do punk. É isso mesmo, para os que acreditam que o punk já nasceu cheirando a subversão, enganam-se, ele foi meticulosamente forjado para ser assim, pois tal estilo surgiu numa época em que a Inglaterra atravessava uma de suas piores crises de desemprego, contribuindo para o inconformismo da juventude proletária sequiosa de “algo” que a libertasse do tédio. Malcolm MacLaren absorveu essa realidade e a converteu, pela música, em novos valores juvenis de rebeldia.
Em 1976 quando o punk-rock sugiu, sua veia revolucionária se manifestou mais pelas roupas carregadas, atitudes agressivas e comportamento dos jovens proletários do que pelas suas ideias anarquistas. Os punks dessa época criaram um lema que viria servir de base para o movimento: do it yourself (faça você mesmo), que expressava o desejo de independência dessa juventude em relação ao sistema. Apesar das bandas punks alcançarem um certo popularismo ganhando até mesmo as capas de algumas revistas, suas músicas ficavam restritas apenas aos guetos londrinos; as grandes gravadoras absorviam o mínimo do novo movimento contra-cultural, desfavorecendo assim, o seu crescimento. A partir do “faça você mesmo”, gangues e associados ao movimento, começaram a formar suas próprias bandas e a editar fanzines que serviam de veículo de divulgação das bandas emergentes. Surgiram também as primeiras gravadoras independentes que passaram a registrar a música dos grupos e divulgá-la com maior solidez.

Da rebeldia punk à estética do obscuro

Em 1977 o punk atravessa um certo declínio por ser considerado um sinônimo de má-reputação e vandalismo e a imprensa mundial começa a tratá-lo apenas como New Wave (Nova onda). É nesse período que a indústria cultural começa, ironicamente, a absorver toda a expressão e rebeldia do punk assossiando a eles novos valores musicais como The Police, Gary Numan, Ultra Vox, The Pretenders etc.; nos EUA surgem bandas como Talking Heads, Blondie, B 52’s, entre outras.

 

New Wave: termo tão diverso e de difícil delimitação

New Wave: termo tão diverso e de difícil delimitação

New wave é termo tão diverso e de difícil delimitação, que a indústria cultural buscou rótulos para melhor defini-lo, uma vez que as bandas desse novo segmento adotavam modalidades variadas e resgatavam posturas e linguagens das décadas anteriores. É possível perceber na música de algumas delas uma sonoridade mais soturna e um visual de palco mesclando algo do punk com elementos mais sofisticados e até mesmo glamurosos dando forma a uma estética híbrida como diferencial. Um bom exemplo disso é a banda The Damned, que inicialmente tinha uma sonoridade punk bem original e posteriormente, junto com outras bandas do gênero, entrou no jogo comercial das gravadoras adotando nova postura, sendo considerada junto com as demais a primeira banda traidora do movimento.
Mas esse deslocamento para uma postura e estética musical obscuras já se verificava bem antes, ainda em 1976 e bem depois, em 1978, com bandas como Joy Division e Bauhaus respectivamente. A primeira foi a precursora em inserir elementos eletrônicos em sua música mesclados a arranjos densos com temáticas voltadas para a depressão e a existência humana caótica, sendo até hoje considareda a pioneira do new wave na primeira metade da década de oitenta. De fato, o Joy Division sempre transitou numa sonoridade punk-new wave. Numa época de descontentamento com a cena musical pós-punk e a tensão politico-social da guerra-fria e constante crise econômica que eclipsava qualquer esperança no futuro, configurou-se nesse período uma visão neo-romântica de mundo que resgatava alguns valores e elementos de épocas passadas como o romantismo da Idade Média associado ao Cinema Expressionista de décadas passadas que trazia produções como Nosferatu, Drácula, O Gabinete do doutor Caligari etc. O visual estético-despreocupado do punk foi dando espaço, como já mencionado, a um visual mais composto que expressava essa nova visão neo-romântica como fuga a ausência de novas e reais conquistas sociais.

 

Bauhaus: estilo minimalista, guitarras reverberadas e um visual híbrido puxando para o dark

Bauhaus: estilo minimalista, guitarras reverberadas e um visual híbrido puxando para o dark

Foi nesse contexto que surgiu uma banda que, aproveitando elementos do movimento pós-punk, criou uma nova sonoridade marcante permeada de arranjos soturnos. Era o Bauhaus. Com um estilo minimalista, guitarras reverberadas e um visual híbrido puxando para o dark, a banda a princípio objetivava satirizar o Expressionismo levando para o palco uma forma de encenação teatral com músicas que abordavam o terror dos filmes expressionistas. Sua composição Bela Lugosi’s Dead fez com que o Bauhaus com toda razão fosse conclamado pelos fãs a primeira banda genuína de rock-gótico, mesmo a contra-gosto do vocalista Peter Murphy que nunca aceitou tal rótulo.
O termo gótico é muito abrangente e está profundamente inserido em vasto contexto histórico. No período renascentista gótico era termo pejorativo para se referir aos povos de outas culturas, como os Godos, e toda arte produzida por eles. No século XVIII, o gótico passou a ser sinônimo de literatura de horror com a obra o Castelo de Otranto (1764) de Horace Walpole, romancista que inaugurou o chamado romance gótico. No final desse período, quando essa literatura alcança o seu auge, são consagrados também autores como Ann Radcliffe e Mathew Lewis. No século XX, a literatura clássica de horror do século XVIII é absorvida pelo já citado Cinema Expressionista alemão, que além de Nosferatu, cria um dos seus melhores clássicos, o também já citado O Gabinete do doutor Caligari. Toda essa estética sombria e mórbida da literatura de horror clássica, também chamada literatura negra ou gótica, explorada por bandas do cenário pós-punk, como o Bauhaus, culminou na chamada música gótica.
Muito bem. Em fins de década de 70, surge um novo segmento musical inspirado no som eletrônico da banda alemã Kraftwerk, o New Romantic, que deu origem na Inglaterra ao Technopop, que teve como precursores as bandas inglesas Ultravox, Human League e Tubeway Army, que fizeram o casamento entre os dois estilos. Mas é na década seguinte que surgirá o grande icone do New Romantic Technopop, o A flock of Seagulls. A partir daí, todo um segmento de estilos musicais foram se fundindo levando a subcultura gótica, ao absorvê-los, a se tornar um verdadeiro leque de estilos musicais e estéticos, talvez nem tão definidos. Atualmente já existe dentro dessa subcultura até mesmo o eletrogothic, com bandas que mesmo usando guitarras, baixos e baterias, possuem uma forte base eletrônica.

 

Das Ich - banda alemã de electro-goth e darkware

Das Ich - banda alemã de electro-goth e darkware

Como vimos, a subcultura gótica constitui um fascinante conjunto cultural que ganha força em segmentos artísticos particulares presentes na arquitetura, literatura e na música contemporânea, sobrevivendo também da socialização de seus adeptos.

 

Bibliografia
– BRANDÃO, Antonio Carlos; DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos culturais de
juventude. 12 ed: Editora Moderna, 1990.
– KIPPER, H. A. A happy house in a black planet: introdução à subcultura gótica. 2008,
ed. do autor, 126 pgs.
– SCHAEFER, Richard T. Sociologia. 6 ed, McGraw-Hill, São Paulo, 2006.

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