Um drink rubro doce na necrópole

É fato que alguns góticos atualmente abandonaram suas tradicionais idas aos cemitérios, seja para beber e socializar-se, promover sarais noturnos ou simplesmente aproveitar o sossego que tal ambiente pode proporcionar, principalmente em determinados horários; selando assim uma prática tão marcante nessa subcultura. É claro que isso não tornou-se uma regra a ser seguida (e creio que está muito longe disso) e muitos são os noctívagos que ainda dão preferência, entre os diversos locais de predileção, a esse espaço delimitado nas grandes e pequenas capitais.

Em Teresina a prática não possui vigor, ou pela vaga consolidação da subcultura em terra nordestina, ou pelos espaços cemiteriais teresinenses serem isentos de rica arquitetura tumular, observação considerável feita ao cemitério São José Operário, que, embora não tenha uma arte cemiterial a exemplo de grandes necrópoles, é possível perceber alguns túmulos intercalados com uma arte razoável, o que gera timidamente um esforço a visitas nesse espaço por parte dos “pouquíssimos” góticos aqui presentes.

Recentemente, Theo Mochteros e eu, fomos fazer uma visita ao citado cemitério, num final de tarde nublada que nos presenteou com uma ambientação translúcida e convidativa em um sábado 19 de fevereiro. Devido o horário avançado (chegamos próximo ao encerramento das visitas), não foi possível fazer todo o escrutínio desejado nos túmulos do local. A câmera de meu companheiro de visita também não quis cooperar nas poucas fotos que poderíamos ter tirado, deixando para uma breve oportunidade o registro da parca arte tumular do São José. Enquanto saíamos do lugar, pudemos conferir o quanto a subcultura gótica ainda é novidade em Teresina; a aferição deu-se pelo espanto do senhor que ia entrando enquanto nós saíamos, ele até mesmo parou para observar por alguns segundos o que poderia ser aquelas duas figuras tão singulares; ou o flanelinha, que demonstrou certo medo de meu amigo Theo, preferindo manter-se distante do outro lado da avenida a receber as escassas moedas pela vigília do carro. Terrores à parte…

No mesmo final de tarde, já entrando na esplêndida e consoladora noite, e depois de termos comprado os vinhos e as velas para nosso encontro escuro de apresentações literárias embaixo das grandes árvores do quiosque abandonado nas proximidades do Riverside, ficamos aguardando a chegada dos demais seres noturnos. Todos estávamos, por coincidência, despreparados para a leitura de poesias ou comentários de obras literárias nessa noite e, após a chegada do último vampiro, por volta das 23:20, seguimos, depois de uma anterior provocação minha, para o cemitério na cidade ao lado Timon, no Estado vizinho, onde moram dois de nossos companheiros noctívagos: Euacalahd e Meduna. No caminho compramos mais três garrafas de vinho e abastecidos, partimos.

O cemitério, que por coincidência também chama-se São José, possui uma estrutura tumular ainda mais simples, mas convence pela ambientação muito agradável e a total liberdade dos visitantes noturnos. A diferença com o de Teresina, fica por conta da não vigilância do local, onde tanto o portão como a pequena capela no centro do ambiente permanecem sempre abertos. Ali fizemos nosso refúgio longe da rotina massante da sociedade, enchendo nossos copos e taças com o vermelho líquido doce e deleitoso a nosso paladar. Uma pequena padaria do outro lado do muro a esquerda da grande janela da capela, onde eu costumava ficar sentado, jorrava uma nítida fumaça esbranquiçada que contrastava com véu escuro e fazia-me sentir como se estivesse em um cenário surreal de Tim Burton. Entre um gole e outro do sangue que sorvíamos de nossas taças e copos, andávamos e divagávamos por entre os túmulos simples, engolfados pela pureza da noite.

Sem dúvida uma noite que prometeu mais que as outras anteriores e que me fez perceber que a subcultura que possuímos por aqui ainda se faz de poucas pessoas, mas, que dão a ela uma ótima qualidade a ser explorada. O eixo Teresina-Timon, será levado adiante por nós. Este texto breve é dedicado às criaturas da noite que se confraternizaram sobre o céu noturno e na solidão da necrópole.

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5 Respostas to “Um drink rubro doce na necrópole”

  1. Oi… mto surreal sua historia incrivel mesmo… ta parecendo filme do Tim Burton ou uma episodio da familia addams… brincadeiras a parte… eu n gosto de cemiterio, mas acho que cada um tem seu gosto… assim como cada estilo tem seus adeptos… mas se der depois passa no meu blog de poemas goticos… sempre atualizado com poemas tristes da dura dor do mundo que é tão tragico… é realmente o que se chega a ser uma pessoa gotica depende mto da interpretação… eu andava em um grupo que tinha gente de outros estilos diferentes, no Riverside… Acho que a cena em Teresina devia ser mais unida… o problema é que os goticos aqui em Teresina vagao e ninguem tem noticias deles… conhece mtas goticas no Riverside, mas nunca mais as vi… desde 2006-2008 andei la a procura da cultura gotica lá… mas n consegue mto nao… mas acho que hj em dia devia centralizar mais… tem uns goticos em altos que sao unidos… deveriam ser unir com os que tem em teresina e fazer uma comunidade gotica como em sao paulo… que tem bares, boates e outras manifestaçoes culturais em sao paulo…´
    ):

    • Peregrinus Says:

      Nem sempre o velho adágio: “a união faz a força” pode ser exaltado. Há góticos e pessoas que se alto intitulam assim. São os que realmente sabem o que é carregar esse nome que eu procuro por esta cidade de contradições. A mim não basta quantidade. Aparências é fácil de se construir, mas uma identidade valorizada ainda estou por ver. Concordo com você que deve haver mais união, porém, essa deve ser em prol de todo o grupo, senão seriam apenas indivíduos perdidos dentro de um grupo. Mas gostei de você ter se manifestado, precisamos de mais pessoas que se manifestem como você. Continue aparecendo, e me passe o endereço de seu blog.

      Abraços soturnos.

  2. oi meu nome e juniel sou de teresina sou um gotico em busca de conhecer outras pessoas que vivem e curtem esse estilo musical tao pisicodelico e deprimente quero conhecer principalmente as goticas de teresina tenho 26 anos e aguardo seu contato atraves do fone 086 94893860 vamos conversar sobre vampirismo,terror,lugares misticos e goticos que influenciam nossas vidas e modificam nossas almas.aguardo voces

  3. Ninguém especial Says:

    Bem em Teresina existem muitos espectros travestidos de mortais simplórios, todavia a exaltação dessa tendência advinda dos recantos ingleses não é possível ser efetivada perante esse clima cálido e fatigante. Eu mesmo, desde minha adolescência – a mais ou menos 9 anos atrás – costumava vagar em busca de terceiros semelhantes; em todo ambiente fúnebre que se possa conceber, em todo solitário e ermo lugar estive, mas não encontrei ninguém autêntico, só vultos de indivíduos que ostentavam a aparência móbida desse movimento. Mas não é nos trajes e na divulgação que se encotra a genuína alma gótica, pois isso são recursos deseperados de querer buscar uma autenticidade que não se mostra no mero vestuário. Por isso você nunca encontrará pessoas vestidas com demasiado requinte (sobretudo, piercing, coturnos) por aí, à toa; não precisamos disso no momento. No cemitério já ate´dormi por lá, antes mesmo de haver qualquer movimento noctívago; mas deixei de lado essa onírica imagem soturna, descobri que é em mim mesmo que está toda a essência obscura. Logo não há razões concretas para desmotivações, aqui existem muitas almas mortas condicionadas pelo estilo gótico, só que não se exponhem aos demais, guardam para si mesmas aquilo que elas sentem de fato.

  4. Olá! estou indo passar férias aí em Teresina, vou em agosto.
    Tem alguma festa que vai rolar em agosto de 2012?
    Sou de São Paulo.
    Bjo. :*

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