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Carpe Diem II (ou Memento Mori I)

Posted in Resenha on fevereiro 22, 2011 by sinistrum

Vivemos num mundo capitalista (todos sabem disso, mas não dão bola !). Na confusa busca da tal felicidade, muitos trocam o ser pelo ter. É a isto que chamo de futilidade. O consumismo exacerbado, o poder que se sente quando se tem o que o outro não tem. A inveja do sucesso alheio. O acúmulo, o cúmulo do acúmulo, mais, mais, mais….

Carpe diem! – Gritam alguns, justificando esse consumismo desenfreado e outros desregramentos…

O bom senso é eclipsado com a simples ideia boba e vazia do carpe diem (“aproveite o dia”, fala sério !!!). Gritem carpe diem num velório. Aproveitar o dia, como? Me digam! Bebendo, fumando, fornicando? Quando se tem câncer em fase terminal não se pode fazer isso. Nem quando se é muito velho. Conselho imbecil para os tetraplégicos. Quem não tem dinheiro se sente uma b*. Quem é patético e sem graça, inapto por natureza à vida em sociedade (como eu) pode se iludir e acreditar que é culpa sua a inabilidade de aproveitar a vida tal qual se lhe apresenta. Ah, como que tem saúde, dinheiro ou beleza física se arrogam superiores e não enxergam a realidade, verdadeiros narcisistas, quando vão perceber que o sol não nasce para todos?

“Viver como se não houvesse amanhã” não nos diz como viver; não nos diz nada; é apenas uma frase frívola que os frívolos repetem para si mesmos e tentam fazer que outros engulam essa cretinice.

É fato! Se esperamos que o mundo dobre os joelhos perante nossa presença somente porque corremos a vida inteira como dementes, isso não é nada senão um fato lamentável. O mundo não é um lugar mágico, é um lugar físico: não vai nos dar presentes gratuitamente para ver nosso sorriso, e nosso sofrimento não vai compadecê-lo absolutamente, tampouco nos dará o direito de exigir ressarcimento por nosso infortúnio. Em essência, depois de satisfazermos um sonho o que teremos é um sonho a menos. Até o grande Shakespeare concordou com isso quando disse que “choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes”.

O homem é só um pobre mamífero jogado nesse mundo absurdo sem entender nada do que está acontecendo; um primata sem sentido que precisa de sentido, que, como qualquer outro, é cheio de necessidades, impulsos, sentimentos, desejos e expectativas que serão frustrados frequentemente; cheio de ideais, teorias e crenças nas quais muitas se mostrarão erradas; cheio de angústias, dores e misérias que serão consistentemente reais.

Escola, universidade, trabalho, viagens, o bar … Todas as ocupações as quais nos dedicamos são apenas um passatempo para suportarmos a vida. A motivação humana sustenta-se neste autoengano: precisamos ultravalorizar a nós mesmos e nosso objetivos por uma simples questão de autopreservação.

De fato a morte é coisa séria e para muitos é respeitada e temida. O que nos diferencia é a consciência que dela temos. Não pensar na morte não vai evitá-la. Adorá-la não vai compadecer-lhe.

O caminho da felicidade, para a maioria das pessoas, é essa valorização descabida da vida, como se um “Big Brother Brasil” fosse a tábua de salvação de uma vida medíocre, da doença, da pobreza e da morte fútil. Realmente a felicidade mais fácil é a do ignorante.

“Vamu bebê, vamu fumá, vamu f* até num aguentá mas! Que essa p* de vida vai piorá!!!”

Carpe diem a todos…

by Theo Mochteros

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Um drink rubro doce na necrópole

Posted in Resenha on fevereiro 22, 2011 by sinistrum

É fato que alguns góticos atualmente abandonaram suas tradicionais idas aos cemitérios, seja para beber e socializar-se, promover sarais noturnos ou simplesmente aproveitar o sossego que tal ambiente pode proporcionar, principalmente em determinados horários; selando assim uma prática tão marcante nessa subcultura. É claro que isso não tornou-se uma regra a ser seguida (e creio que está muito longe disso) e muitos são os noctívagos que ainda dão preferência, entre os diversos locais de predileção, a esse espaço delimitado nas grandes e pequenas capitais.

Em Teresina a prática não possui vigor, ou pela vaga consolidação da subcultura em terra nordestina, ou pelos espaços cemiteriais teresinenses serem isentos de rica arquitetura tumular, observação considerável feita ao cemitério São José Operário, que, embora não tenha uma arte cemiterial a exemplo de grandes necrópoles, é possível perceber alguns túmulos intercalados com uma arte razoável, o que gera timidamente um esforço a visitas nesse espaço por parte dos “pouquíssimos” góticos aqui presentes.

Recentemente, Theo Mochteros e eu, fomos fazer uma visita ao citado cemitério, num final de tarde nublada que nos presenteou com uma ambientação translúcida e convidativa em um sábado 19 de fevereiro. Devido o horário avançado (chegamos próximo ao encerramento das visitas), não foi possível fazer todo o escrutínio desejado nos túmulos do local. A câmera de meu companheiro de visita também não quis cooperar nas poucas fotos que poderíamos ter tirado, deixando para uma breve oportunidade o registro da parca arte tumular do São José. Enquanto saíamos do lugar, pudemos conferir o quanto a subcultura gótica ainda é novidade em Teresina; a aferição deu-se pelo espanto do senhor que ia entrando enquanto nós saíamos, ele até mesmo parou para observar por alguns segundos o que poderia ser aquelas duas figuras tão singulares; ou o flanelinha, que demonstrou certo medo de meu amigo Theo, preferindo manter-se distante do outro lado da avenida a receber as escassas moedas pela vigília do carro. Terrores à parte…

No mesmo final de tarde, já entrando na esplêndida e consoladora noite, e depois de termos comprado os vinhos e as velas para nosso encontro escuro de apresentações literárias embaixo das grandes árvores do quiosque abandonado nas proximidades do Riverside, ficamos aguardando a chegada dos demais seres noturnos. Todos estávamos, por coincidência, despreparados para a leitura de poesias ou comentários de obras literárias nessa noite e, após a chegada do último vampiro, por volta das 23:20, seguimos, depois de uma anterior provocação minha, para o cemitério na cidade ao lado Timon, no Estado vizinho, onde moram dois de nossos companheiros noctívagos: Euacalahd e Meduna. No caminho compramos mais três garrafas de vinho e abastecidos, partimos.

O cemitério, que por coincidência também chama-se São José, possui uma estrutura tumular ainda mais simples, mas convence pela ambientação muito agradável e a total liberdade dos visitantes noturnos. A diferença com o de Teresina, fica por conta da não vigilância do local, onde tanto o portão como a pequena capela no centro do ambiente permanecem sempre abertos. Ali fizemos nosso refúgio longe da rotina massante da sociedade, enchendo nossos copos e taças com o vermelho líquido doce e deleitoso a nosso paladar. Uma pequena padaria do outro lado do muro a esquerda da grande janela da capela, onde eu costumava ficar sentado, jorrava uma nítida fumaça esbranquiçada que contrastava com véu escuro e fazia-me sentir como se estivesse em um cenário surreal de Tim Burton. Entre um gole e outro do sangue que sorvíamos de nossas taças e copos, andávamos e divagávamos por entre os túmulos simples, engolfados pela pureza da noite.

Sem dúvida uma noite que prometeu mais que as outras anteriores e que me fez perceber que a subcultura que possuímos por aqui ainda se faz de poucas pessoas, mas, que dão a ela uma ótima qualidade a ser explorada. O eixo Teresina-Timon, será levado adiante por nós. Este texto breve é dedicado às criaturas da noite que se confraternizaram sobre o céu noturno e na solidão da necrópole.